(Ainda em Beijing) - A viagem de volta é outra viagem. Como sempre, começa um momento de digestão, reconhecimento, reconstrução. Saio daqui um pouco desconstruída, deformada, ansiosa pela rotina que me descansa.
Ontem, uma ponta da linha encontrou a outra dentro de mim. Sem querer, sem pensar. Acho que minha cabeça já está exercitada a fazer isso por causa da análise. Foi um momento de lucidez vibrante. Eu deveria ter parado para escrever naquela hora. Mas a calma de agora também tem suas vantagens.
Quando uma linha se fecha num círculo, não há começo nem fim. Mas acho que o fio começa há um ano e 20 e poucos dias, quando pisei pela primeira vez em Beijing. Ninguém me falou welcome to Beijing. Nem uma vez.
O calor era insuportavelmente infernal (queria escrever bem o suficiente para descrever isso). O céu, 100% cinza, 100% do tempo. O trânsito, inacreditável. O povo chinês, sem noção. Dava medo de andar na rua com pinta de turista porque facilmente juntavam-se uns 10 vendedores ambulantes te empurrando rorex a five dóra. A densidade e a explosão demográfica nunca haviam sido conceitos tão assustadoramente fáceis de serem absorvidos. Era visualmente cansativo. E ninguém sorria dizendo thank you for your comprehension.
Foi uma boa surpresa ver o que aconteceu em um ano em Beijing. O céu ficou relativamente azul. Uma chuvinha o limpou e refrescou o calor. Camelôs e mendigos foram varridos para sei lá onde. No lugar, trouxeram os sorrisos sempre acompanhados de muita subserviência e sorry. Beijing se transformou ou transformaram-na num lugar mais agradável. Comparando com São Paulo, antes eu achei aqui pior que lá. Agora, tenho a impressão de que lá é pior. São dois lados. A Olimpíada fez Beijing pular esse muro e me olhar pelo outro lado. E foi ela que pulou o muro porque o meu olhar é o mesmo.
Era.
Desta vez, a cidade é oficialmente mais organizada. Dá para enxergar mais coisas, cansar menos o olhar, compreender melhor. E eles agradecem a compreensão. Foi para isso que estes Jogos serviram. A China me mostrou que pode dominar o clima e as pessoas para se inserir no mundo que eu conheço. A China deseja se inserir no meu mundo. E eu vim e me empanturrei de mochila, broche, mordomias, sorrisinhos. Me empanturrei de respeito, obediência e subordinação.
A China me atingiu através das principais personagens do mundo (do meu mundo) para me convencer de que ela consegue organizar a vida da forma como ela quiser. Ela esfregou na minha cara que tem capacidade e força político-sócio-cultural-o-diabo-a-quatro para mandar e desmandar e fazer acontecer e fazer bem feito. Tal qual os recordes dos imbatíveis Bolt e Phelps nos deslumbrantes Ninho de Pássaro e Cubo DÁgua, onde Bush veio tietar. Ele veio tietar a China.
O sucesso desses Jogos evidencia que a minha incompreensão sobre a China era um problema meu. Eu é que tenho que ruminar esse país. E ontem eu até aplaudi de pé o presidente Hu Jintao, sentado ao lado de muita gente com cara de importante no melhor lugar do estádio. Com a minha mochila olímpica nas costas e os óculos olímpicos na testa, eu me levantei e aplaudi, com vontade, aquela festa. Era toda dele. Dele e do Partido Comunista. Eles fizeram tudo acontecer do jeito que foi. Sei lá à custa do que. O poder sobre tudo que fez com que a qualidade de vida aqui superasse, em um ano, à de São Paulo é assustador. Do clima às pessoas. Produziram prédios exuberantes, aeroportos, 51 medalhas de ouro.
Estão produzindo atletas de ponta em série assim como produziram sorrisos em série. Pouco importa se o sorriso é genuíno. Essa coisa de valorizar o autêntico é mais um conceito que o meu mundo terá de rever se quiser compreender a China. E eles vão agradecer pela nossa compreensão. Eles não vão mudar. Pra que mudar se deu tudo certo? Deu tudo certo, desde a hora em que Li Nin acendeu aquela tocha, na maior prova de que o falso é lindo (beautiful fake) por aqui, até a hora em que uma voz falou, após a cerimônia de encerramento: por favor, permitam que os atletas deixem o estádio antes. Obrigada pela compreensão.
Em tempo: durante os Jogos, a frase thank you for your co-operation (obrigado pela cooperação) era repetida 200 vezes ao longo do dia por seguranças e voltunários, e não comprehension. Bom, isso não muda muita coisa.
É unanimidade na equipe do iG em Pequim que os voluntários encabeçam a lista das 10 melhores coisas da Olimpíada de Pequim (entre os fatos que não tenham a ver necessariamente com esportes). Muitos sorrisos, muitos obrigados, desculpas, muita vontade de ajudar, muito esforço para falar e entender inglês, muitas regras, muita obediência.
Depois da cerimônia de encerramento, um gesto espontâneo dos chinesinhos marcou o fim dos Jogos. O tchau. Nas ruas, ao ver os ônibus com as delegações e os turistas partirem do parque olímpico, centenas deles não paravam de acenar e dizer "bye-bye! Welcome to Beijing!".
A torcida brasileira que está em Pequim veio apoiar atletas do vôlei, atletismo, natação, ginástica, além de muitos outros esportes. Mas todo mundo sabe que a paixão, mesmo é o futebol.
Por isso, por todos os palcos, junto com as bandeiras brasileiras, muitos dos times do futebol brasileiro estiveram representados. Alguns deles, nós registramos e você vê neste link. enviada por Redação de Pequim
O MPC (Centro de Imprensa da Olimpíada) reúne jornalistas do mundo todo e setoristas de esportes diferentes. Vários monitores de TV mostram tudo o que está acontecendo, nas mais variadas sedes.
É comum em frente às TVs ter um ou dois prestando a atenção na competição (seja ela qual for) enquanto a imensa maioria trabalha em seus textos, entrevistas e ficam ao telefone, só espiando.
São poucos os eventos que 'param' o MPC. Um deles foi certamente a final do basquete masculino, sobretudo quando a Espanha encostou no time americano. A torcida é dividida mais ou menos assim: os norte-americanos contra a rapa.
Não sei ao certo se trata-se de antiamericanismo puro e simples ou se é aquela sensação de torcer para o mais fraco que acomete geralmente quem está neutro.
Fato é que os gritos a cada cesta de três da Espanha ou enterrada de Pau Gasol eram absurdamente mais comemorados do que as jogadas do consistente time norte-americano, medalha de ouro.
Terminado o jogo, todos de volta às suas reportagens. Sem mágoas. Impera o espírito esportivo como num abraço de Pau Gasol e Kobe Bryant depois do jogo. enviada por Redação de Pequim
Alguns países mostraram mesmo quem manda em certas modalidades olímpicas. No feminino, estes três pódios abaixo com ouro, prata e bronze para o mesmo país não deixam dúvidas qual é terra do tênis (Rússia), da velocidade (Jamaica) e do tênis de mesa (China).
OURO BRASILEIRO, RECORDE JAMAICANO E OS FANFARRÕES CHINESES
por Mauricio Teixeira
O dia no Ninho de Pássaro nesta sexta-feira foi agitado. Tinha cheiro de medalha brasileira e foi logo de ouro com direito a 'fazer história' e tudo mais para Maurren Maggi, a primeira brasileira a conquistar um ouro individual na história dos Jogos. Todos os méritos para esta paulista de São Carlos, que desde o primeiro dia está concentrada no objetivo que tinha, a medalha. Não é fácil chegar ao topo numa Olimpíada. Ainda mais em esportes como a natação e o atletismo, onde temos pouca tradição.
Foi também dia de mais um passeio de Usain Bolt, desta vez com a sua turma, na conquista dos 4x100 metros com outro recorde mundial. Ele foi escalado como terceiro homem do revezamento. O mais impressionante é que ele entregou para Asafa Powell o bastão e seguiu, 'trotando', na direção do fim da prova. Como você pode ver na imagem, ele faz força para não chegar antes à linha de chegada do que alguns dos últimos competidores. Deve ser difícil para convencer o homem mais rápido do mundo de que ele precisa ir devagar. Asafa mal tinha passado a linha, fazia a curva para saudar o público e foi alcançado pelo monstro dos 100 e 200 metros rasos que o abraçou.
Terminado o dia de provas, volto à minha posição na tribuna do Ninho de Pássaro para um chat com os internautas do iG e para redigir as entrevistas e matérias que fiz com Maurren e outros.
Como neste sábado acontece por aqui a final do futebol, começa uma grande movimentação de uma pequena multidão de 200 pessoas para transformar o palco do atletismo em campo de futebol. Cada pedaço de grama arrancado eventualmente por um dardo ou martelo é substituído, assim como o gramado vai ganhando as linhas brancas demarcatórias, traves e ao redor bancos de reserva. Tudo para que Messi e Riquelme não corram riscos desnecessários.
Mas a cena das cenas é de três fanfarrões que aproveitam a honra de estarem na pista onde Usain Bolt espantou o mundo da velocidade em duas pernas para fazer uma graça. Depois de tantos recordes e emoções, um pouco de bom humor não faz mal a ninguém. Veja o vídeo!
Um dia antes de começar o atletismo eu encontrei o técnico do 4x100 metros feminino do Brasil, Katsuhyco Nakaya. Entre outras coisas, ele me falou que chegaria à final e que brigar pelo quinto lugar seria viável.
Nakaya me explicou que o forte do Brasil é a passada do bastão, talvez o mais bem treinado entre todas as equipes. A conversa evoluiu até a equipe norte-americana. Eu vi elas treinando a passagem, é horroroso, disse, bem antes da prova de ontem. Claro que elas compensam na velocidade, mas periga até cair, disse o treinador.
Não só caiu o bastão das meninas americanas como dos homens também. E a previsão de Nakaya de chegar em quinto, sem americanas na frente, já começa a ganhar contornos bem mais interessantes.
por Mauricio Teixeira enviada por Redação de Pequim