Direto de Pequim

25/08/2008 13:30

FIM - PARTE 3

Por Nara Alves

(Ainda em Beijing) - A viagem de volta é outra viagem. Como sempre, começa um momento de digestão, reconhecimento, reconstrução. Saio daqui um pouco desconstruída, deformada, ansiosa pela rotina que me descansa.

Ontem, uma ponta da linha encontrou a outra dentro de mim. Sem querer, sem pensar. Acho que minha cabeça já está exercitada a fazer isso por causa da análise. Foi um momento de lucidez vibrante. Eu deveria ter parado para escrever naquela hora. Mas a calma de agora também tem suas vantagens.

Quando uma linha se fecha num círculo, não há começo nem fim. Mas acho que o fio começa há um ano e 20 e poucos dias, quando pisei pela primeira vez em Beijing. Ninguém me falou “welcome to Beijing”. Nem uma vez.

O calor era insuportavelmente infernal (queria escrever bem o suficiente para descrever isso). O céu, 100% cinza, 100% do tempo. O trânsito, inacreditável. O povo chinês, sem noção. Dava medo de andar na rua com pinta de turista porque facilmente juntavam-se uns 10 vendedores ambulantes te empurrando “rorex” a “five dóra”. A densidade e a explosão demográfica nunca haviam sido conceitos tão assustadoramente fáceis de serem absorvidos. Era visualmente cansativo. E ninguém sorria dizendo “thank you for your comprehension”.

Foi uma boa surpresa ver o que aconteceu em um ano em Beijing. O céu ficou relativamente azul. Uma chuvinha o limpou e refrescou o calor. Camelôs e mendigos foram varridos para sei lá onde. No lugar, trouxeram os sorrisos sempre acompanhados de muita subserviência e “sorry”. Beijing se transformou – ou transformaram-na – num lugar mais agradável. Comparando com São Paulo, antes eu achei aqui pior que lá. Agora, tenho a impressão de que lá é pior. São dois lados. A Olimpíada fez Beijing pular esse muro e me olhar pelo outro lado. E foi ela que pulou o muro porque o meu olhar é o mesmo.

Era.

Desta vez, a cidade é oficialmente mais organizada. Dá para enxergar mais coisas, cansar menos o olhar, compreender melhor. E eles agradecem a compreensão. Foi para isso que estes Jogos serviram. A China me mostrou que pode dominar o clima e as pessoas para se inserir no mundo que eu conheço. A China deseja se inserir no meu mundo. E eu vim e me empanturrei de mochila, broche, mordomias, sorrisinhos. Me empanturrei de respeito, obediência e subordinação.

A China me atingiu através das principais personagens do mundo (do meu mundo) para me convencer de que ela consegue organizar a vida da forma como ela quiser. Ela esfregou na minha cara que tem capacidade e força político-sócio-cultural-o-diabo-a-quatro para mandar e desmandar e fazer acontecer e fazer bem feito. Tal qual os recordes dos imbatíveis Bolt e Phelps nos deslumbrantes Ninho de Pássaro e Cubo D’Água, onde Bush veio tietar. Ele veio tietar a China.

O sucesso desses Jogos evidencia que a minha incompreensão sobre a China era um problema meu. Eu é que tenho que ruminar esse país. E ontem eu até aplaudi de pé o presidente Hu Jintao, sentado ao lado de muita gente com cara de importante no melhor lugar do estádio. Com a minha mochila olímpica nas costas e os óculos olímpicos na testa, eu me levantei e aplaudi, com vontade, aquela festa. Era toda dele. Dele e do Partido Comunista. Eles fizeram tudo acontecer do jeito que foi. Sei lá à custa do que. O poder sobre tudo – que fez com que a qualidade de vida aqui superasse, em um ano, à de São Paulo – é assustador. Do clima às pessoas. Produziram prédios exuberantes, aeroportos, 51 medalhas de ouro.

Estão produzindo atletas de ponta em série assim como produziram sorrisos em série. Pouco importa se o sorriso é genuíno. Essa coisa de valorizar o autêntico é mais um conceito que o meu mundo terá de rever se quiser compreender a China. E eles vão agradecer pela nossa compreensão. Eles não vão mudar. Pra que mudar se deu tudo certo? Deu tudo certo, desde a hora em que Li Nin acendeu aquela tocha, na maior prova de que o falso é lindo (beautiful fake) por aqui, até a hora em que uma voz falou, após a cerimônia de encerramento: “por favor, permitam que os atletas deixem o estádio antes. Obrigada pela compreensão”.

Em tempo: durante os Jogos, a frase “thank you for your co-operation” (obrigado pela cooperação) era repetida 200 vezes ao longo do dia por seguranças e voltunários, e não “comprehension”. Bom, isso não muda muita coisa.

enviada por Redação de Pequim






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